Um grande amigo (1)

(Por Djalma Rodrigues)

nonato reis

Amigo é aquele que se insere na verdadeira concepção da palavra. É
aquele com quem você se ajuda mutuamente. É aquele que está ao seu
lado nas horas festivas, mas que não o abandona nos momentos de
angústias, de sofrimento, de sufoco. É aquele que sempre tem uma
palavra de conforto quando você está no aperto. E eles são poucos.

Como trabalho com político, sou acostumado a ver lideranças cercadas
de “grandes amigos” quando estão no exercício do poder e mergulhados
na solidão quando saem de cena. Vi tais situações com diversos
vereadores que exerceram a presidência da Câmara Municipal de São Luis
e de deputados que foram presidentes da Assembleia Legislativa, que
depois reclamaram da ausência dos “amigos do poder”.

O ex-governador Luiz Rocha costumava reunir comunicadores nas
sextas-feiras para um café da manhã no Palácio dos Leões. Já na reta
final de sua administração, dizia que dos trinta e poucos deputados
que viviam a lhe cercar no começo do governo, não havia mais nem 10 a
lhe procurar. Afirmava saber como isso ocorria e que não iria se
deprimir em tal situação. Brincava, dizendo que até o garçom já lhe
trazia o café frio, de olho em quem iria sucedê-lo. Não havia mais
aquela solicitude submissa entre os serviçais do Palácio.

Faço esse preâmbulo para ilustrar que todos nós temos muitos
conhecidos, inúmeros colegas e pouquíssimos amigos. É uma realidade
nua e crua, mas esses poucos amigos nos fazem acreditar na
solidariedade e nas virtudes da Humanidade. Sei que são poucos meus
amigos e pretendo retratá-los a partir de agora em escritos semanais.

Nonato Reis (foto acima)É um jornalista de texto irretocável, e hoje serventuário da Justiça do Maranhão. Posso afirmar que encontrei em Nonato Reis um grande amigo. Dividimos espaço na redação do extinto Jornal de Hoje, em meados da  década de 1980, como repórteres e depois  nos revezamos na direção do matutino,  como secretários de redação. Cheguei ao cargo de  editor-chefe, pouco tempo depois, onde permaneci até o último suspiro desse grande jornal, em 1994.

Selecionei Nonato Reis como um grande amigo por conta de nossas ajudas
de mão dupla. Ainda jovem e boêmio, enfrentei alguns problemas
familiares e busquei apoio na bebida.  Enchia a  cara, muitas das
vezes em pleno trabalho, quando nos plantões de final de semana.
Nonato Reis, preocupado, se encarregava de fazer os textos e pedia que
o motorista me levasse para casa.  Ninguém,  a não ser ele, o
motorista e o fotógrafo Almir Pinheiro tomavam conhecimento dessa
situação, que foi superada num prazo de pelo menos seis meses.

Isso nos aproximou. Passei a enxergar o Reis por outras lentes, sobre
outro prima.  Estava ali,  não apenas um companheiro de trabalho, mas
um autêntico amigo, que fez malabarismos para ocultar  as falhas do
colega. Passamos então a ter longas conversações, em troca de idéias e
divagando sobre o presente e o futuro. A verdadeira  amizade se
solidificou.

Posteriormente, assumi a direção de redação do Jornal de Hoje, e
Nonato Reis entrou em conflito com José Carlos de Oliveira, então
diretor administrativo do órgão. Irritado, me entregou uma carta com o
seu pedido de demissão. Fiquei preocupado, já que Reis era um dos mais
brilhantes e importantes  dos meus redatores. Disse-lhe para agir com
cautela e lhe garanti que iria entregar a missiva à direção.

Nonato Reis saiu esbravejando impropérios e guardei a carta na gaveta.
Na semana seguinte ele retornou e indagou como estava a situação.
Puxei a carta, lhe entreguei a pedi que me fizesse uma matéria
especial. O caso foi esquecido.

O jornal parou a rotativa e cada um seguiu o seu rumo. Reis esteve em
outras redações, na Assembleia Legislativa, governo do Estado e foi
aprovado para o cargo de Oficial de Justiça do TJ. Continuamos nossa
amizade, sempre batemos um papo pelo telefone (detesto conversa
online). Ele continua o mesmo. É um homem solidário, íntegro e de uma
larga visão. Tenho o privilégio de contar com Nonato Reis, nascido no
nanico povoado de Ibacazinho, em Viana, como um dos meus diletos
amigos.

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